Estratégia de Preços
Aqui no Brasil (e seguramente na maior parte do mundo), a grande maioria das empresas ainda não define seus PREÇOS estrategicamente. Uma pesquisa informal, com executivos de 500 empresas médias e grandes, revelou que 80% destas empresas utilizam Markup na determinação do Preço de Venda de seus produtos/serviços (estima-se que os demais 20% determinam PREÇOS initando a concorrência).
Markup é um índice (multiplicador) que significa o quanto do preço do produto está acima do seu custo de produção e distribuição. Este índice (multiplicador) representa TODOS os demais elementos formadores do Preço de Venda.
No Brasil, até meados de 1994, os Preços eram definidos utilizando esta ferramenta, por dois motivos muito fortes:
1º. Não existia tecnologia (hardware e software) barata e de qualidade disponível.
- Imaginem quais eram, há 20, 30 ou 40 anos, os “hardwares” e “softwares” de gestão (utilizava-se esta palavra na época?) existentes.
- Até o início do século XXI, só empresas “grandes” tinham estrutura financeira para utilizar plataformas eletrônicas de gestão (caso tenha trabalhado numa empresa grande, você certamente viu ou ouviu falar do computador que ocupava um andar inteiro na matriz da empresa). A única informação eletrônica de gestão era contábil, que era voltada para relatórios e informações legais e fiscais. Em muitas destas empresas, o relatório contábil era apresentado 3, 4 meses após o fechamento do mês.
- Todos os gestores (Contadores, Administradores, Economistas-sou um deles, Engenheiros, etc.) haviam aprendido, em algum estágio do desenvolvimento didático, que a Formação do Preço de Venda era baseada em Markup.
2º. Existia a Inflação, que se transformou em HIPERINFLAÇÃO (Leitura recomendada: livro "Saga brasileira, a longa luta de um povo por sua moeda", da jornalista Miriam Leitão).
- Qual o VALOR das coisas? Qual o VALOR do meu trabalho? Em março de 1993, meu salário era de 31 milhões de Cruzeiros. Em julho do mesmo ano, quatro meses depois e não tendo recebido nenhuma promoção ou aumento espontâneo, era de 88,4 milhões de Cruzeiros. Eu ganhava milhões e não era milionário: neste mês, um dólar valia 71.173 Cruzeiros. Parece confuso, mas era a realidade.
- Se as pessoas tinham dificuldade em saber qual o VALOR do seu trabalho e também dos produtos e serviços que adquiriam, as empresas (de todos os tamanhos) não ficavam imunes aos efeitos da inflação.
- A Formação do Preço de Venda (Custos x Markup) era composta de:
=> Custo: Valor do último custo apurado (ou valor da última compra) acrescido do % de inflação do período.
=> Markup: Índice “mágico” derivado das experiências de cada empresa e cada empresário, em cada mercado, em cada ramo de atividade.
=> Preço de Venda: (Custo x Markup)
=> Indexação: % de inflação (semestral, trimestral, mensal, semanal ou diária) real ou estimada adicionado ao preço.
Até meados doa anos 90, não era possível garantir que os Preços estivessem rentáveis para as empresas (o que garantis parcialmente era a indexação). Mas essa não era a maior preocupação das empresas, pois o importante era fazer CAIXA e aplicar este saldo de caixa diariamente no Open Market. Estas aplicações geravam o “lucro” real das atividades econômicas.
A partir de 1994, com a estabilização da moeda, muita coisa mudou. Foi possível diminuir a defasagem tecnológica dos produtos e serviços feitos no Brasil. Passou a ser possível importar em escala produtos que, ao mesmo tempo em que obrigavam a indústria brasileira a evoluir no sentido de oferecer VALOR, traziam um patamar de preço relativamente menor ao preço dos produtos “made in Brasil”.
Junto com a estabilização do valor de Produtos e Serviços, tivemos também a evolução mundial de tecnologia e de conhecimento, que permitiu o surgimento e/ou a evolução de diversos sistemas de gestão eletrônica que hoje estão disponíveis e acessíveis para TODAS as atividades econômicas, seja de que tamanho for (do pequeno comerciante às grandes corporações).
Mas a estabilização da moeda também trouxe um problema: Ela fez desaparecer o principal componente (muitas vezes o único) do lucro da maioria das empresas. As aplicações Financeiras perderam seu status de geradoras do lucro das empresas, obrigando estas a gerir de forma mais eficaz suas atividades.
Devido à cultura dos gestores e dos desenvolvedores de sistemas de gestão, o primeiro foco de controle foi na estrutura de custos. Dificilmente vamos encontrar, nos dias de hoje, empresas que não tenham desenvolvido seu Custo-Alvo, utilizado Kaizen, Kanban e outros. Num primeiro momento, a redução foi drástica. Certo tempo após a implantação destes modelos, o resultado é a manutenção das melhorias conquistadas e/ou a obtenção de novas melhorias, com pequenos ganhos (redução de valores cada vez mais centesimais).
Apesar do esforço e dedicação na gestão dos custos e das despesas, sabemos que o ganho com preços é significativamente maior que o ganho com redução de custos e despesas. Segundo artigo “Building a better pricing infrastructure“ da consultoria McKinsey, agosto de 2010, nas 1200 maiores empresas de capital aberto do mundo, uma unidade % de aumento nos preços geram aumentos de 8,7 a 12,7% no lucro operacional.
Segundo este mesmo artigo, a Estrutura de precificação pode ser difícil e cara para criar, sendo necessário investir de forma adequada, capacitando as pessoas certas, articulando metas claras e objetivas e gerenciando riscos. Frederico Zorning (autor de Acerte o Preço e Aumente seus Lucros) diz que esta estrutura é necessária para “Capacitar a empresa a gerir os Preços de forma dinâmica, às vezes com várias decisões de preços em um só dia”. Os gestores das empresas (seja de que tamanho forem) que querem se manter competitivas mas ainda utilizam apenas o MARKUP na Formação do Preço de Venda devem criar uma Estrutura de Precificação e devem começar pela Estratégia de Preços.
Mas afinal, o que é Estratégia? O conceito de Estratégia é amplo. Henry Mintzberg, autor, professor e crítico de algumas das atuais práticas de planejamento estratégico afirma que Estratégia é a forma de pensar no futuro, integrada no processo decisório, com base em um procedimento formalizado e articulador de resultados. Estratégia também pode ser definida como o conjunto de objetivos, finalidades, metas, diretrizes fundamentais e os planos para atingir os objetivos.
Na área militar, Estratégia pode ser definida como a ciência dos movimentos e planejamento da guerra e do domínio econômico. Através da estratégia militar foram criados os conhecidos serviços de inteligência e aprimorada a arte de guerrear. Sun Tzu, estrategista do século IV a.C. escreveu: 1) Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas.
2) Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota.
3) Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas
O tratado “A Arte da Guerra”, escrito por Sun Tzu, abordava de forma abrangente as estratégias militares. Apesar dos negócios não serem guerras, negócios e guerras partilham muitos elementos. Abaixo, uma associação entre os princípios fundamentais para Guerras e Negócios:
Na Guerra | Nos Negócios |
Escolha o Local de Batalha | Selecione os mescados em que a empresa competirá |
Concentração de Forças | Organize os recursos da empresa |
Ataque | Implementação das ações competitivas da empresa |
Forças diretas e indiretas | Gerenciamento das Contingências |
Então? Pronto para iniciar a montagem de Estratégia de Preços na sua empresa?
Dê a largada: Crie uma equipe permanente e exclusiva para PREÇOS (Pricing Team)e convoque um grupo multidisciplinar para ajudar no desenvolvimento, utilizando pessoal de Finanças, Comercial, Marketing, Logística, Produção, TI, Planejamento.
Bruno F. Moura
(Junho de 2011)